quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

A especialista

Rolava diversão todo dia. Eu e meus colegas de redação frequentávamos casas de swing e todo mundo transava com todo mundo. Só era horrível trabalhar no dia seguinte. Ninguém conseguia encarar o outro. E, no fim, sempre alguém vomitava na minha lata de lixo.” Esse era o cotidiano de Dian Hanson quando trabalhava como jornalista da revista hippie-pornô Partner, nos anos 70. Aqueles dias selvagens, porém, mostraram-se frutíferos: hoje ela é responsável pelo departamento de sexy books da maior editora de livros de arte do mundo, a Taschen. Em dez anos, Dian publicou 50 títulos e acaba de finalizar um dos mais polêmicos, The Big Book of Pussy, último dessa coleção. No mês passado, dois sucessos de vendas — The Big Book of Penis e The Big Book of Breasts — ganharam versões em 3D. Dian garante que, aos 59 anos, trocou as festas animadas por noites calmas com o marido e um vinho.

Para encontrar as imagens dos livros, Dian passa até um ano avaliando fotos em sites, revistas e acervos. Trabalhinho bom? Ela também acha. Seu interesse avassalador por sexo começou aos 17 anos, quando viu o livroThe Illustrated Presidential Report of the Commission on Obscenity and Pornography, de Earl Kemp — tão forte que foi censurado seis meses após o lançamento. “Sentia meu rosto queimar. Fiquei envergonhada, mas não conseguia parar de ver. Queria fazer isso o resto da vida”, lembra. “Havia bondage, duplas penetrações, bestialidade. Muito mais do que poderia imaginar.”

A oportunidade de ingressar no mercado de sexo veio alguns anos depois, quando o dono de uma rede de sex shops da qual seu namorado era funcionário propôs ao casal montar uma revista pornográfica: a hardcore Puritan. “Nos anos 70, era tudo novo, sem regras. Havia mais fotógrafos amadores e modelos amadoras, e muito mais espontaneidade. Nós estávamos inventando a pornografia”, conta. Segundo Dian, essa experimentação acabou, tanto na produção quanto na vida real. A liberalidade dos anos 70 se foi e, embora tenham aparecido imagens extremas no final dos anos 90 e 2000, hoje o excesso de pornografia na internet deixa as pessoas sedadas. “Um homem pode ver na internet, em 10 minutos, o que em 1955 teria de pesquisar sua vida inteira”, diz.

Qual é seu segredo para continuar a vender, então? Entender o público. Desde os primeiros editoriais que produziu para revistas, Dian pedia aos leitores que enviassem cartas descrevendo suas fantasias, lia tudo e traduzia os desejos em imagens. Ela ainda guarda a maior parte desse material, mas não pensa em publicá-lo ou fazer um documentário. “Não vou expor minha vida dessa maneira. Não quero deixar meus amigos em situações constrangedoras. Bem, talvez depois que meu marido tímido morrer…”, reavalia.

Esse instinto de preservação em relação ao marido tem fundamento. Segundo ela, sua profissão sempre interferiu nos relacionamentos. “Depois de um tempo, todos se transformaram em homens possessivos e ciumentos. Não aceitavam o fato de eu produzir material para homens se masturbarem. É compreensível.”

Sua transição para a Taschen aconteceu em 2001. Se foi difícil sair do baixo mundo para o glamour de uma editora mundialmente famosa? “Não existe diferença entre arte e pornografia. O que existe é pornografia ruim e arte ruim, pornografia boa e arte boa”, acredita. “Ao olhar uma foto sexual, todo mundo quer ver aquele brilho de realidade, de emoção, que foi esquecido quando o mercado se profissionalizou demais. É isso que eu procuro.” Atualmente, o ouro da pornografia, segundo Dian, são as fotos e os vídeos caseiros. “Talvez esse material amador consiga trazer de volta a intensidade do início da década de 70, sem grandes produções e com mais verdade. Sem dúvida prefiro ver a foto de uma mulher de 50 anos segurando o pênis do marido, feliz da vida, do que a de uma modelo absolutamente linda com os olhos mortos”, diz.


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