quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Amada mão

O que torna a masturbação muito legal é que seu principal e único objetivo é o gozo. É uma ação objetiva e dirigida para o orgasmo. Falem o que quiser, mas existem poucas coisas tão naturais e sossegadas como se masturbar. E quero dizer que salvo algumas raras exceções em que o sujeito acaba morrendo em uma sessão onanista com asfixia, como aquela que levou o ator David Carradine para a tumba, a masturbação sempre tem um final feliz. Não há conflitos, nem afeto e muito menos paixão. O sexo solitário pertence ao mundo da fantasia. Não engravida e nem transmite DSTs. Alguns vão dizer que os masturbadores têm problemas de relacionamento e que o onanista é necessariamente um solitário. Outros poucos dirão que ejacular no tapete equivale a um genocídio. O fato, porém, é que quem se masturba não perde oportunidade nenhuma e nem desperdiça nada. Na verdade, aproveita uma oportunidade de gozar mais uma vez. O orgasmo alcançado pela masturbação é um ganho, não uma perda; é saúde, não doença – é uma pequena alegria que todo mundo pode se proporcionar rotineiramente ou em um momento de aperto.

Mesmo assim, poucos atos foram tão perseguidos e renderam tantas interpretações idiotas ao longo da história. Parece piada, mas além da Igreja, a medicina primitiva, os moralistas em geral e até Sigmund Freud contribuíram para transformar a masturbação em algo problemático ou condenável. Na verdade, trata-se de uma coisa insignificante, uma prática secreta e tão natural, espontânea e sem consequências que nem deveria merecer consideração. E condená-la ou proibi-la é uma injustiça tão grave quanto o veto católico à camisinha ou a perseguição a Galileu Galilei. Masturbação é um direito individual e uma forma simples de se obter prazer sexual. Pode-se considerá-la até uma espécie de não-acontecimento, algo que, para todos os efeitos, não acontece. O escritor D.H. Lawrence definiu, na primeira metade do século 20, o ato masturbatório como “o único ato radicalmente secreto do ser humano, mais secreto ainda que as funções de excreção.”

Os poderosos nunca se conformaram com isso e sempre tentaram encontrar formas de identificar e denunciar o masturbador. Na sua ânsia de poder e controle, padres e médicos buscavam indicadores externos de que o individuo praticava a transgressão do sexo solitário. Mão peluda, peitinho, cegueira, excesso de espinhas, insanidade, emagrecimento, perda de memória e de capacidade mental, vômito, epilepsia, acessos de raiva e até o suicídio eram considerados sintomas ou conseqüências da doença masturbatória. Toda essa tolice serviu para apavorar homens e mulheres do Ocidente durante séculos e afastá-los da tentação do ato ou, pelo menos, cobri-lo pelo silêncio. No ano 1050, o papa Leão IX condenou oficialmente a masturbação como um “pecado secreto”. São Tomás de Aquino, um dos grandes teólogos católicos, incluiu a prática entre os quatro vícios contra a natureza listados em sua Suma Teológica, escrita no século 13. Os outros três são a zoofilia, o homossexualismo e qualquer forma de sexo não-procriativo.

Um manual inglês do início do século 18 está na origem das condenações “técnicas” à masturbação – ali se vinculou, pela primeira vez e de maneira deturpada, a palavra onanismo à prática. O punheteiro foi estigmatizado e seu ato definidor colocado na ante-sala da loucura. O nome do tratado é “Onania: o atroz pecado da autopolução e suas terríveis conseqüências a ambos os sexos”. O problema é que o hebreu Onã, personagem bíblico que está na raiz do nome definitivamente não era um masturbador. Seu pecado pode ter sido o coito interrompido ou o desperdício de sêmen. Contrariando a vontade divina, Onã recusou-se a fecundar a cunhada Tamar, mulher de seu irmão mais velho, Er, e despejou seu gozo na terra. Acabou condenado à morte por Deus porque jogou seu esperma fora. E tomaram isso como um veto divino à masturbação. A passagem está em Gênesis, capítulo 38, versículo 9. Está lá. A história de Onã é só mais um equívoco que se perpetuou, um trauma fundamental – um grilo primordial criado pelos intérpretes da Bíblia.

Felizmente, hoje estamos livres de qualquer cruzada anti-masturbatória e podemos nos dedicar à autopolução à vontade e sem culpa, além de fazer apologia do ato. A ciência moderna nos apóia e a Igreja católica tem outras questões sexuais mais importantes para resolver. Além disso, não adianta lutar contra os fatos. Desde os anos 50, graças às pesquisas sexuais do zoólogo americano Alfred Kinsey, sabe-se que a maioria da população se masturba com regularidade e não está nem aí para qualquer impedimento religioso. Segundo Kinsey, mais de 90% dos homens e mais de 60% das mulheres dedicam-se à prática. Recentemente, no começo dos século 21, um estudo do Conselho de Câncer de Merlbourne, na Austrália, revelou também que a prática ajuda a prevenir o câncer da próstata. Homens com idade entre 20 e 50 anos que ejaculam com freqüência se protegem contra a doença – e a vantagem da masturbação sobre a relação sexual é que a primeira não expõe a infecções. O mundo mudou e a revolução sexual tirou o ato da lista negra dos pecados e perversões. E do jeito que evoluem as coisas, há chances, em um futuro próximo, dos médicos passarem a indicar a masturbação como condição para uma vida saudável.

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